O que te comove?

O que te comove?

Cada dia que passa o mundo está se alargando pra mim. Às vezes coloco assim, como se ele repentinamente, num ato voluntário e ativo, criasse um tapete vermelho para meus pés. E eu como uma criança inocente, andasse no tapete vermelho. Mas quando me olho neste corpo adulto vejo, sinto e ouço o quanto de mim tem neste alargamento. E onde mais procuro é: qual minha responsabilidade criativa nisso tudo? Digo: criação-ativa.

Ontem caminhando na floresta perto de casa, pisando nas folhas úmidas que já prenunciam o outono, fui percebendo que quem andava era eu. E o chão parecia só relaxar para que meus pés se acomodassem. Andar, simplesmente andar, foi ficando um ato poético e de repente criativo. Eu misturada na consciência adulta de perceber o que acontecia, ia sentindo a criança espontânea, que com autoria brincava com o chão. A cada passo eu respirava. E encantada e surpresa com tamanha presença e criação, eu percebi como tudo aquilo me comovia. Comoção… esse ato genuíno de se abrir para ser tocada. Tocada dentro, naquilo que também sou e que frequentemente esqueço.

Sim, o mundo vem se alargando dentro e fora de mim e por isso, eles tem se encontrado mais frequentemente. Quando isso acontece, eu me sinto inteira. As vezes é só um relance, mas eles abençoam meus dias por meses. Até vir o próximo.

Isso me faz lembrar duas falas de um professor meu, que ainda nem sabe que é pra mim, um mestre no sentido poderoso que esta palavra pode ter: “Eu conheço o mundo me engajando”… me relacionando intimamente com ele. Tomando tempo e percepção de como ele me afeta e comove. Tomando tempo e percepção da nossa incrível relação de cria-ação. “Eu me conheço me emergindo”… sentindo meu Core, meu centro, que ativo cria cooperativamente com o mundo.

Ontem, o mundo e eu tivemos um encontro!

Livro: O corpo na História – J.C. Rodrigues

Reinaugurando o blog… depois de tanto tempo!

O corpo individual, limpo, subjetivado e objetivado,
afasta-se do cosmos. O autor finaliza seu belo
livro convidando à busca do resgate da incontornável
dimensão trágica do corpo. Um corpo que possa absorver
as ameaças e delas extrair o alimento de sua
renovação. Um corpo que “não admite maniqueísmos.
Não comete os pecados filosóficos de imaginar
que o mal seja extirpável e que a felicidade esteja alhures.
Reconhece que as melhores coisas da vida (sobretudo
a própria) contêm inexoravelmente um risco de
morte. Corpo fluido, que se desfaz ao mesmo tempo
em que a vida o constitui. E que se constitui ao mesmo
tempo em que a vida o desfaz”.

você PODE dizer eu te amo?

Faz tempo que eu não blogo. Seleciono coisas interessantes e as guardo para quando tiver um tempo e então, nada. Acabo fazendo outra coisa. Mas esses dias, um vídeo lindo (na minha opinião) caiu na minha mão. O vi, revi, enviei por email para alguns colegas e decidi tomar um tempo e escrever sobre ele aqui.

No vídeo, que só de olhar para o rosto do gurizinho já é uma delícia, e a música, que dá um charme terno e especial a esse tema AMOR (E MEDO?), daria para fazer uma observação interessante sobre as fragilidades das nossas certezas – mesmo as adultas. 

Mas em verdade, eu gostaria só de comentar sobre as expressões corporais do Tan Hong Ming.  A forma como ele segura os ombros, como os eleva e os baixa – já no início do vídeo. Como contrai o corpo e o mantém contraído, talvez por medo: tanto pelo medo de amar, ou o medo em revelar o segredo de estar amando. 

“I like her” – olha de baixo para cima, eleva as sobrancelhas, abaixa um pouco a voz, mantém o peito apertado por entre os ombros. Depois vai, suavemente, deixando o corpo soltar o que estava guardado. Ir deixando o corpo arriscar a se tornar vulnerável na revelação: “Eu gosto dela”.

Balança a cabeça e busca com os olhos respostas que justifiquem um sentimento que simplesmente se sente. “Ela é bonita”

“O que você gostaria de falar para ela?” Falar? Pra ela? E nós podemos e falamos sobre nossos sentimentos com a pessoa em questão? Isso não pode?! Se pode, Tan contrai mais o corpo, abaixa a cabeça, olha para baixo. Timidamente e, em movimentos infantis, busca refugio no mexer dos dedos das mãos. Imagino que coloca as mãos entre as pernas.

Que pergunta estranha a da pesquisadora. Como assim: ele vai contar pra garota do amor que ele sente? Como a pesquisadora não sabe que a gente não faz isso? É tão óbvio. Irritação? E então, os braços se estendem em expansão.

Ele então, olha para o lado, para que ninguém escute: “Ela não gosta de mim”.

Uni Qazerina aparece. As mãos dele cada vez mais ansiosas, agitando algo que o distraia da tensão. Espantado ele olha para ela e olha para câmera a cada palavra, aparentemente, tranqüila e sem contração da menina. A confissão, Tan é meu melhor amigo, abre um sorriso no garoto. Ele levanta mais as sobrancelhas. Como assim? Espantoso?

A menina mantém o sorriso. E a cada pergunta, o sorriso meio encabulado se torna mais rígido.

THE END: “Quem é seu namorado?” Na resposta, entusiasmo: solta os braços, boca aberta, sobrancelhas suspensas, Tan já não olha para a garota e, provavelmente, na cumplicidade com a pesquisadora olha para a câmera e não acredita.

É muito? Não vamos mais falar sobre isso? O que vai acontecer agora? O que a pesquisadora pode perguntar ou revelar? Contar que ele também a ama?

Então: sustentamos essas situações ou fugimos delas?

Para fechar, um parágrafo da minha pesquisa da UNB – Corpo, Subjetividade e técnicas corporais – “A técnica corporal insere-se numa linha de raciocínio que considera que cada movimento e expressão é uma conduta tradicionalmente apreendida e transmita, de maneira consciente ou não, elas ‘fundamentam-se em certas sinergias nervosas e musculares que constituem verdadeiros sistemas, solidários com todo o contexto sociológico’”.

Sendo assim, respondendo numa análise corporal á pergunta do vídeo e ainda, compreendendo como o social opera no mais íntimo do individual: Sim, nós temos medo de dizer eu te amo. E isso pode ser socialmente aceito e vivenciado por nós!

“O convite” – doação terapeutica

Li há um tempo atrás um texto enviado por uma cliente, ao meu email. Na época, ela dizia ter encontrado um texto que falava exatamente sobre sua identidade, um convite para a transformação de nossas vidas. Esse texto me tocou muito. Durante várias sessões trabalhamos em cima dele. Resolvi postá-lo aqui. Afinal, ele é muito Core Energetics.

“Não me interessa o que você faz para sobreviver. Eu quero saber pelo que você sofre, e se você ousa sonhar encontrar o desejo do seu coração.

Não me interessa a sua idade. Eu quero saber se você se arriscará a parecer um tolo por amor, por seus sonhos, pela aventura de estar vivo.

Não me interessa quais planetas estão em quadratura com a sua lua. Eu quero saber se você atingiu o centro do seu próprio sofrimento. E se você tem estado aberto para as traições da vida ou tem-se tornado retraído e fechado temendo sofrer mais!

Eu quero saber se você consegue se sentar com a minha ou sua própria dor, sem tentar escondê-la, encobri-la ou fixar-se a ela.

Eu quero saber se você pode alegrar-se com a sua ou a minha alegria; se você pode dançar selvagemente e deixar que o êxtase lhe preencha até as pontas dos dedos das mãos e dos pés, sem se prevenir quanto a ser cuidadoso, realista, ou se lembrar das limitações de ser humano.

Não me interessa se a história que você está me contando é verdadeira, eu quero saber se você pode desapontar alguém para ser verdadeiro consigo mesmo. Se você pode suportar a acusação de traição e não trair sua própria alma.

Eu quero saber se você pode ser sincero e, portanto digno de confiança.

Eu quero saber se você pode ver a beleza, mesmo quando o dia não está belo, e se você pode conectar sua vida através da presença de Deus.

Eu quero saber se você pode viver com o seu ou meu fracasso, e ainda permanecer à margem de um lago e gritar para a lua cheia prateada “Sim!”

Não me interessa saber onde você vive ou quanto dinheiro você tem.

Eu quero saber se você é capaz de acordar depois da noite de aflição e desespero, exausto e machucado até a alma e fazer aquilo que precisa ser feito.

Não me interessa o que você é como você veio parar aqui. Eu quero saber se você permanecerá no centro do fogo comigo sem recuar.

Não me interessa onde ou com quem você estudou.

Eu quero saber o que lhe sustenta interiormente, quando tudo o mais desaba.

Eu quero saber se você é capaz de ficar só consigo mesmo, e se você realmente é boa companhia para si mesmo nos momentos vazios. ”

The Invitation (Oriah Sonhadora da Montanha)

tradução (MLQ)

Amamos com nosso coração e questionamos, duvidamos e controlamos com nosso ego

Há uma parte do livro ALEGRIA do Lowen, que fala sobre nossa disponibilidade em nos entregar para o amor. Resolvi publicá-la aqui, pois tenho ouvido e compartilhado muitas questões sobre os relacionamentos atuais.

“Nosso coração pode dizer: ‘Entregue-se”, mas nosso ego diz: ‘Tome cuidado, não se deixe levar; você será abandonado e ferido’. O coração como órgão do amor é também o órgão da satisfação. O ego é o órgão da sobrevivência, a qual é uma função legítima, mas quando o ego e nossa sobrevivência dominam nosso comportamento, a entrega verdadeira torna-se impossível. Ansiamos pelo contato que faria nossos espíritos voarem nas alturas, nossos corações baterem mais rápido e nossos pés saírem dançando, mas esse anseio não é realizado porque nossos espíritos estão anulados, nossos corações estão trancados e nossos pés sem vida. ”

O amor suaviza a pessoa mas ser suave é ser vulnerável – e isso assuta o ego.

“Para a maioria das pessoas, a questão não é se amam ou não amam, mas se podem amar com todo o seu ser. Seria demais esperar isso numa cultura como a nossa, que considera a entrega ao corpo como um sinal de fraqueza. Uma entrega ao amor frustra-as, mas, em vez de reconhecer a causa de seu fracasso, culpam seu parceiro amoroso. É verdade que o compromisso do parceiro era igualmente frio – do que ele igualmente culpará o outro. (…) Um relacionamento só floresce quando ambas as pessoas trazem um sentimento de alegria a ele. Tentar encontrar alegria através de uma outra pessoa nunca funciona.”

O amor é uma partilha e não uma doação. E a alegria que se compartilha decorre da nossa entrega ao corpo, não da entrega ao outro. Afinal a alegria que a gente sente, sentimos no nosso corpo de uma forma difícil de explicar. De repente somos transbordamos por algo em nós, só isso.